ODS: A humanidade avançou, mas ainda está muito lenta
- Vitor Balan

- 13 de jul.
- 5 min de leitura

Na última terça-feira, 7 de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou o Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2026. A menos de cinco anos de 2030, prazo estabelecido para o cumprimento dos ODS, a constatação é de que a humanidade avançou, mas não na velocidade necessária, e em algumas áreas passou a retroceder, o que torna o cenário ainda mais inquietante.
Das 139 metas para as quais existem dados de tendência, apenas 36% estão no caminho certo ou apresentam progresso moderado. Outras 49% avançam lentamente demais, enquanto 15% já se encontram em situação pior do que em 2015, ano em que os 193 Estados-membros da ONU assumiram o compromisso com a Agenda 2030.
Além de dimensionar o atraso, esses percentuais devem nos convidar a refletir sobre as vidas por trás das estatísticas: uma em cada dez pessoas ainda vive em extrema pobreza, cerca de 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave e mais de 150 milhões de crianças sofrem com atraso no crescimento. Tudo isso no mesmo ano em que uma pessoa se tornou a primeira da história a ter um patrimônio estimado em mais de US$ 1 trilhão, em um contraste que escancara a distância entre os compromissos globais de desenvolvimento sustentável e o objetivo de grande parte dos empresários: a concentração extrema de riqueza.
Crises que se sobrepõem, consequências que se acumulam
Conflitos armados, mudanças climáticas, desaceleração econômica, aumento do endividamento e redução da cooperação internacional não produzem efeitos isolados. Ao contrário, formam uma rede de crises que se reforçam mutuamente e tornam ainda mais difícil o cumprimento da Agenda 2030. Eventos climáticos extremos destroem moradias, lavouras e serviços públicos, enquanto conflitos armados deslocam populações e interrompem cadeias de abastecimento. Quando uma economia se fragiliza, os governos perdem capacidade de investir em saúde, educação e infraestrutura. Nesse ciclo, a insegurança alimentar compromete a saúde, prejudica a aprendizagem e limita as possibilidades de geração de renda.
Esse cenário evidencia que o desenvolvimento sustentável não pode ser construído por partes.
Não há avanço consistente na educação quando a fome impede uma criança de aprender, assim como não há redução duradoura da pobreza sem trabalho digno, proteção social e acesso a serviços básicos. Tampouco é possível falar em prosperidade em um planeta que se torna progressivamente mais instável.
Entre as forças que alimentam essa instabilidade e ameaçam o cumprimento da Agenda 2030, a crise climática ocupa posição central. Em 2025, a temperatura média do planeta ficou 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais, enquanto a concentração de dióxido de carbono na atmosfera alcançou o maior patamar em aproximadamente dois milhões de anos. Paralelamente, o risco de extinção se agravou entre diferentes grupos de espécies, e a proteção das áreas consideradas essenciais para a biodiversidade chegou, em média, a apenas 45%.
Esses dados colocam em xeque a ideia de que ainda será possível adiar decisões estruturais e compensar o atraso mais adiante. Quanto mais lenta for a transição para modelos de desenvolvimento de baixo carbono e resilientes ao clima, maiores serão os custos financeiros, sociais e humanos da adaptação. O tempo perdido hoje tende a se converter, amanhã, em impactos mais profundos, soluções mais caras e escolhas ainda mais difíceis.
A Agenda 2030 também passa pelo setor privado
Embora os compromissos internacionais dependam fortemente da atuação dos governos, a Agenda 2030 não cabe apenas ao poder público. Empresas, instituições financeiras, organizações da sociedade civil, universidades e investidores também influenciam a direção e a velocidade das transformações necessárias para o cumprimento dos ODS.
Para o setor privado, os resultados apresentados pelo relatório não dizem respeito a questões alheias ao ambiente de negócios. A escassez de água, a perda de biodiversidade, a intensificação de eventos extremos, a desigualdade social, a insegurança alimentar e a exclusão digital afetam as cadeias produtivas, a disponibilidade de matérias-primas, os custos operacionais e as relações com trabalhadores, clientes e comunidades.
Em outras palavras, riscos sociais e ambientais também se transformam em riscos econômicos e estratégicos.
Esses desafios exigem uma relação mais madura com os ODS. Associar projetos aos ícones coloridos da Agenda 2030 pode contribuir para a comunicação, mas não substitui metas, indicadores e decisões concretas. O alinhamento precisa chegar à estratégia, à análise de riscos, à inovação, à escolha de fornecedores, à destinação de investimentos e à maneira como os impactos são medidos e divulgados.
Essa responsabilidade se torna ainda maior diante da concentração de riqueza em níveis até recentemente inimagináveis. Em uma sociedade na qual uma única pessoa pode acumular um patrimônio superior a US$ 1 trilhão enquanto bilhões ainda convivem com a pobreza e a insegurança alimentar, que papel deveriam desempenhar empresários com tamanho poder econômico? A contribuição esperada não pode se limitar à filantropia ou a iniciativas pontuais. Deve alcançar a forma como os negócios distribuem valor, remuneram o trabalho, recolhem tributos, investem em inovação e assumem responsabilidade pelos impactos sociais e ambientais associados às suas atividades.
Para não dizer que não falamos das flores
O Relatório dos ODS 2026 também oferece motivos para olhar o copo meio cheio. Ao reunir os resultados alcançados desde 2015, o documento mostra que, quando há continuidade nas políticas, financiamento adequado e cooperação entre países e instituições, os avanços deixam de ser apenas promessas e passam a alcançar a vida de bilhões de pessoas.
Na última década, quase um bilhão de pessoas passaram a ter acesso à água potável gerenciada com segurança, enquanto o acesso a serviços de saneamento gerenciados com segurança chegou a mais 1,2 bilhão de pessoas. Na área da saúde, as novas infecções por HIV diminuíram 30% entre 2015 e 2024, e as mortes relacionadas à AIDS recuaram 35%. A eletricidade já chega a 92% da população mundial, e o acesso à internet saltou de 40% para 74%. Pela primeira vez, mais da metade dos habitantes do planeta também conta com algum tipo de proteção social.
Essas conquistas não diminuem a gravidade dos atrasos, mas ajudam a afastar a ideia de que a Agenda 2030 seria inviável, bem como demonstram que os ODS funcionam quando são acompanhados de recursos, planejamento e monitoramento. O desafio agora é fazer com que as soluções que já deram certo deixem de ser exceção.
Ainda há tempo, mas não podemos desperdiçá-lo
O mundo já dispõe de conhecimento, tecnologias e experiências capazes de acelerar a Agenda 2030. O que ainda falta é transformar soluções bem-sucedidas em políticas duradouras e ampliá-las em uma escala compatível com a dimensão dos desafios.
O ano de 2030 está perto o bastante para exigir urgência e suficientemente distante para permitir mudanças. Mas essa janela está se estreitando.
Para que as metas deixem de ser apenas compromissos registrados em documentos internacionais e se traduzam em transformações concretas, as decisões precisam começar agora.





